20/ 04/ 2005 - BRASÍLIA

Um presente para a capital

Projeto de graduação da UnB propõe ampliação do cinema
mais antigo da cidade. Idéia inclui bares e novas salas

CAROLINA VALADARES
Da Assessoria de Comunicação

  Rodolfo Grilu/UnB Agência
 
  Projeto de Andrade prevê mais funcionalidade à área

O primeiro cinema da capital do país, o Cine Brasília, fundado um dia depois da inauguração da cidade, em 21 de abril de 1960, fica cheio somente na época do já tradicional Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Os 607 lugares são poucos para tanto público. Porém, essa “lotação” ocorre durante uma semana, uma vez por ano. A sala mais confortável do Distrito Federal, com cadeiras amplas, tela grande (14m x 6,3m) e programação selecionada com filmes de arte não atrai tanto a população brasiliense quanto os cinemas comerciais. Pensando no problema, o arquiteto recém-formado na Universidade de Brasília (UnB), Thiago de Andrade, desenvolveu estudo para recuperar a área, relatado em seu projeto final de graduação pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da instituição.

Andrade propõe ampliação do Cine Brasília para tornar o espaço mais funcional e agradar os aficionados pela sétima arte. “O projeto inclui a criação de uma escola de cinema, um museu, mais salas e um local fixo para bares e restaurantes”, explica o autor.

Atualmente, de acordo com o diretor do Pólo de Cinema e Vídeo do DF, Fernando Adolfo, as atividades de divulgação da sala concentram-se em duas vertentes: alunos de escolas públicas de ensino fundamental do DF (como parte do projeto A Escola Vai ao Cinema, em sessões diárias às 10h e às 15h) e público que se interessa por mostras temáticas.

Divulgação  
 
Espaço atrás do cinema seria utilizado para a construção dos novos prédios  

NOVO ESPAÇO – Para a intervenção no Cine Brasília, o arquiteto Thiago de Andrade propõe o uso do lote que fica atrás do cinema (125m x 85m). Seriam criadas quatro salas pequenas com capacidade de projeção para 198 pessoas, um bloco para o museu e a cinemateca (com locais para restauração de filmes) e uma escola de cinema. Para a ligação do primeiro prédio, atrás do cinema, à praça rebaixada, de onde parte o acesso às novas salas, haveria uma galeria subterrânea. Lá ficariam os bares e restaurantes. “Isso funcionaria muito bem quando ocorre o festival, pois a estrutura desmontável usada no evento é muito precária”, avalia.

Na opinião da professora da Faculdade de Arquitetura (FAU), Christina Jucá, o projeto final de graduação do ex-aluno da UnB não rompe com o projeto de Niemeyer e avança no que há de mais característico em Brasília: o bucolismo das entrequadras. “Esse trabalho deveria ser colocado em prática, pois dá nova dimensão de vida ao Cine Brasília”, elogia a professora. “Tentei respeitar as superquadras e a entrequadra e manter a circulação e os espaços livres. Em termos de linguagem, o trabalho não fere o caráter das demais construções”, complementa Andrade. O projeto Ampliação e Intervenção do Cine Brasília foi inscrito no Prêmio Ópera Prima para idéias surgidas na graduação em Arquitetura. O resultado sai em setembro de 2005.

COMO SERIA A AMPLIAÇÃO  
Cinema Mantém a obra do original e cria quatro salas pequenas para atender melhor à demanda do festival.
Bares e restaurantes Com abertura para os dois lados das quadras, aumentaria o movimento do local e geraria maior demanda.
Museu Brasília não possui um museu de cinema e o cineasta Vladimir Carvalho mantém um pequeno acervo com obras raras em sua casa, que poderia ser aproveitado.
Escola O pólo de cinema e vídeo de Sobradinho se articularia com a escola projetada, ampliando o acesso da população.
Garagem subterrânea Reduziria muito a ocupação de vagas dos moradores das quadras na época do Festival e durante o ano, já que a demanda para uso do local aumentaria.

ARQUIVO INFORMAL - A idéia do projeto, orientado pela professora da UnB Christina Jucá, nasceu após a leitura de uma matéria no jornal Correio Braziliense, onde o cineasta e professor aposentado da UnB, Vladimir Carvalho falou sobre a necessidade de se criar uma cinemateca na cidade. “Como eu gosto muito de cinema, essa foi uma causa que me mobilizou. Eu me interesso pelas obras da cidade e queria fazer um trabalho que desse um recado para a população”, diz o arquiteto.

O próprio Carvalho, que registrou problemas do início da cidade em suas películas, mantém um pequeno acervo com a memória do cinema brasiliense no espaço térreo de sua casa, na W3 sul. Tem ainda em seu arquivo informal alguns equipamentos e fotografias antigas. “Brasília não tem até hoje um projeto para cinemateca e eu não tenho condições de manter esse acervo em casa”, diz o cineasta.