27/ 04/ 2005 - nutrição

Cardápio adaptado sem mistérios

Laboratório da UnB ensina portadores da doença celíaca
a fazer receitas especiais sem abrir mão do sabor

ANDRÉ AUGUSTO CASTRO
Editor Online da Assessoria de Comunicação

Rodolfo Grilu/UnB Agência
Ao todo, 30 pessoas estiveram na primeira oficina realizada pela UnB

A professora Patrícia Alvino, 34 anos, só descobriu que o filho Pedro Guilherme, de sete anos, era portador da doença celíaca, distúrbio caracterizado pela intolerância ao glúten, quando o menino desmaiou na escola. Isso fez com que ela e o marido passassem por uma peregrinação por hospitais até chegar ao diagnóstico. “No início não acreditei. Só depois que o teste foi feito três vezes no Hospital Universitário de Brasília (HUB) é que aceitamos”, lembra. Ela foi uma das participantes da oficina promovida pelo Laboratório de Técnica Dietética do Departamento de Nutrição da Universidade de Brasília (UnB), na manhã de quarta-feira, 27 de abril. Durante toda a manhã, 30 celíacos e seus familiares puderam conhecer receitas de pratos que não contenham a proteína presente no trigo, no centeio, na cevada e outros grãos.

Patrícia conta que o filho chegou a ter 100 desmaios por dia e a tomar seis medicamentos controlados diferentes, além de ter passado quase seis meses internado. Ela diz que Pedro já tem noção das privações da doença porque quando sai com os amigos não pode comer em lanchonetes. “No início, ele chegou a bater nos colegas de escola porque achava injusto eles poderem comer tudo e ele não. Depois, começou a ser rejeitado porque os outros achavam que ele se julgava melhor por levar lanche de casa”, revela. Atualmente, o menino é acompanhado por um psicólogo para aprender a conviver melhor com a doença. Pedro Guilherme já não tem crises há três anos e está há um sem tomar remédios.

Rodolfo Grilu/UnB Agência
A nutricionista Clarissa recomenda dieta rigorosa

INFORMAÇÃO - A iniciativa de abrir o laboratório para a população começou há um ano e meio por intermédio da então estudante de Nutrição Clarissa Medeiros de Oliveira, hoje com 24 anos. Enquanto era aluna da UnB, trabalhava com a professora da Faculdade de Medicina Lenora Gandolfi no Centro de Pesquisa, Diagnóstico, Tratamento e Apoio aos Pacientes com Doença Celíaca do Distrito Federal. “Meu irmão tinha os sintomas, então o levei para fazer o teste. Quando descobrimos que deu positivo, toda a família fez e, apesar de ser assintomática, descobri que também tenho”, conta a nutricionista. Como o problema é genético, é importante que as famílias que tenham celíacos fiquem atentas. Pesquisas mostram que um entre cada 17 parentes dos portadores também têm o diagnóstico positivo.

Isso levou Clarissa a apresentar a professora Lenora a Raquel Botelho, docente responsável pelo Laboratório de Técnica Dietética do Departamento de Nutrição. As duas então resolveram montar a oficina, que, na primeira edição, reuniu 30 pessoas. “A próxima será em um sábado para que possamos ter mais participantes. O principal benefício desses encontros é fazer com que as pessoas se conheçam e troquem informações”, explica Raquel. Como já conhecia a doença pelos estudos, Clarissa conta que não teve muitos problemas de adaptação à nova dieta, mas não sentiu muita diferença. “Sei que preciso me manter disciplinada pelos riscos potenciais no futuro, mas há uma perda muito grande de qualidade de vida pelas restrições alimentares”, lamenta a nutricionista.

Rodolfo Grilu/UnB Agência
Lenora alerta para riscos de associação da doença com outras enfermidades

RISCOS - De acordo com a professora Lenora Gandolfi, a única forma de tratar a doença é aprendendo a conviver com dieta disciplinada. Ela explica que, caso não seja tratado, o mal aumenta entre cinco e sete vezes as chances de desenvolver tumores malignos do tubo digestivo, osteoporose (inclusive nos jovens), diabetes e crises convulsivas. “Em um grupo de 29 diabéticos pelo menos um é celíaco”, detalha a professora. Atualmente, o HUB faz o teste gratuito às terças-feiras pela manhã (veja serviço), sem necessidade de marcar consulta. Caso se confirme a doença, o paciente é encaminhado ao exame de endoscopia (para confirmar) e convidado a integrar grupos de orientação no próprio hospital.

Em 2005, o Ministério da Saúde entrou na divulgação da doença e contribui para a caminhada que será realizada no dia 15 de maio, no Parque da Cidade (em Brasília), a partir das 8h30. Lenora destaca que a mobilização acontecerá também em outras cidades do país e no mundo com a intenção de divulgar a doença. No dia 16 de maio haverá programação de 9h às 18h no Ministério da Saúde (veja serviço).

REPÓRTER AVENTURA
Rodolfo Grilu/UnB Agência

Essa foi a segunda vez em que me meti a provar as guloseimas preparadas pelo pessoal do Departamento de Nutrição aqui da UnB. Como o assunto em questão era a oficina e como tinha gente fazendo comida lá na hora, aprendendo receitas e trocando informações, eu não podia voltar para escrever a matéria sem antes experimentar o que estava sendo feito.

Guloso que sou, comecei logo pelo pão de mel (ainda sem cobertura de chocolate) oferecido pela professora Raquel. Delicioso. Melhor até do que aqueles vendidos em qualquer lanchonete. Depois veio uma pizza de atum: boa massa e bom tempero. Em seguida, um pudim de mandioca, também gostoso. O grand finale ficou por conta do pão de mel envolvido em uma deliciosa camada de chocolate. De dar água na boca.

Já entupido de comida, ainda tive a oportunidade de provar um biscoito casadinho (com goiabada) resultado de pesquisas de mestrado. Bem crocante, saboroso e com a mesma aparência de um biscoito comum. Todas as receitas se mostraram bem agradáveis ao paladar e estão mais do que aprovadas. Os celíacos têm no laboratório um bom local para buscar informações e receitas e, pelo ritmo em que as coisas andam no Departamento de Nutrição, em pouco tempo os celíacos terão muito o que comemorar.


SERVIÇO
- Os exames de doença celíaca são realizados no Ambulatório da Pediatria do Hospital Universitário de Brasília (HUB). São gratuitos e estão disponíveis sempre às terças-feiras, das 10h às 12h, no corredor laranja, sala G1. Não é necessário marcar consulta.
- A caminhada em comemoração ao Dia Internacional do Celíaco será realizada no dia 15 de maio, a partir das 8h30, no Parque da Cidade.
- Ainda na comemoração ao Dia Internacional do Celíaco, o Ministério da Saúde promove encontro no dia 16 de maio com mesas-redondas e exposições. Confira a programação:
9h – Exposição no hall de entrada do Ministério da Saúde
9h30 às 11h30 – Cozinha Brasil do Sesi. Equipe da Associação dos Celíacos do Brasil (Acelbra) e da Universidade de Brasília ensinará receitas sem glúten.
14h – Abertura
15h – Mesa Redonda – Articulação Intersetorial das Políticas de Saúde
16h – Mesa Redonda – Movimento Social e a Doença Celíaca no Brasil
17h – Debates
17h30 – Encerramento

 
 

O QUE É A DOENÇA CELÍACA ?(*)

É a intolerância permanente ao glúten. Geralmente se manifesta na infância, entre o primeiro e terceiro anos de vida, podendo entretanto, surgir em qualquer idade, inclusive na adulta. O tratamento consiste em dieta totalmente isenta da substância. Os portadores não podem ingerir alimentos como: pães, bolos, bolachas, macarrão, coxinhas, quibes, pizzas, cervejas, whisky, vodka, quando estes alimentos possuírem a proteína em sua composição ou processo de fabricação.

PRINCIPAIS SINTOMAS

- Diarréia constante
- Distenção abdominal (barriga inchada)
- Gases
- Vômito

O QUE É O GLUTEN?

É a principal proteína presente no trigo, aveia, centeio, cevada e no malte (sub-produto da cevada), cereais amplamente utilizados na composição de alimentos, medicamentos, bebidas industrializadas, assim como cosméticos e outros produtos não ingeríveis.

Na verdade, o prejudicial e tóxico ao intestino do paciente intolerante ao glúten são "partes do glúten", que recebem nomes diferentes para cada cereal. No trigo, é a gliadina; na cevada, a hordeína; na aveia, a avenina e no centeio, a secalina.

O Malte, muito questionado, é produto da fermentação da cevada, portanto apresenta também uma fração de glúten. A substância não desaparece quando os alimentos são assados ou cozidos e por isso a dieta deve ser seguida à risca. A proteína agride e danifica as vilosidades do intestino delgado e prejudica a absorção dos alimentos.

(*) Fonte: Associação dos Celíacos do Brasil (Acelbra)