30/ 10/ 2007 - PRÊMIOS

Mercedes Bustamante é Mulher do Ano

Com estudos sobre o Cerrado, professora da UnB é vencedora
do Prêmio Claudia 2007, na categoria Ciências

CAMILA RABELO
Enviada especial da UnB Agência

Marta Santos/Divulgação
Mercedes recebeu o prêmio das mãos de Viviane Senna, na sala São Paulo

São Paulo – São 14 anos dedicados ao estudo da diversidade do Cerrado brasileiro, tempo de trabalho, renúncia e muito malabarismo para conseguir transformar as poucas verbas para pesquisas em grandes resultados. Já era de se esperar que a mulher e cientista por traz disso tudo, a professora do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Brasília (UnB), Mercedes Bustamante, recebesse com tanta serenidade o título Mulher do Ano na categoria Ciências pelo Prêmio Claudia 2007.  Mesmo diante da emoção de ouvir seu nome na noite de segunda-feira, 29 de outubro, na capital paulista, em cerimônia que pode ser comparada ao Oscar,  a vencedora não esqueceu sua grande causa.

“O conhecimento da nossa diversidade é a base para o desenvolvimento. Entendo que o tempo de dedicação à natureza é também tempo de dedicação a família”, diz convicta sobre a importância da preservação do meio ambiente como uma forma de cuidar da humanidade. Para Mercedes, a grande contribuição do prêmio, além de destacar os trabalhos de mulheres, é difundir as questões do Cerrado. Segundo ela, o bioma já tem cerca de 40% de sua área degradada e esse índice poderá aumentar ainda mais com uma expansão agrícola inadequada. “Estamos mais focados em difundir informações no meio acadêmico, mas o prêmio atinge um público mais amplo”, ressalta.

DEDICAÇÃO – Orgulhoso, o esposo da vencedora Maurício Ayala, que estava presente na cerimônia, ressalta a determinação da cientista. “O prêmio é o reconhecimento de um trabalho de uma vida toda. Não é fácil fazer pesquisa, os desafios, principalmente em relação a recursos, são imensos. A pessoa tem que gostar mesmo, ter persistência e dedicação. E ela se encaixa bem nesse perfil”, afirma ele, que também é professor do Departamento de Matemática da UnB.

Aos 43 anos, Mercedes já possui grande bagagem na área. Ela chegou em Brasília em 1997 e desde então atua no Laboratório de Ecologia da instituição em estudos sobre desmatamento, uso do solo e impacto das atividades humanas no Cerrado. As pesquisas desenvolvidas pela bióloga oferecem subsídios para a elaboração de estratégias de conservação e políticas ambientais mais eficientes. Ciente de que tais medidas dependem de atuação coletiva, ela divide o prêmio com colegas e alunos da universidade. “Os resultados são na verdade fruto de um grande trabalho em equipe”, reforça.

Um dos grandes destaques da carreira da professora é o levantamento por dois anos consecutivos das emissões de gases que contribuem para o aquecimento global em áreas de queimadas, cultivo e pastagem. O estudo faz parte de um programa do Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT) e será o primeiro trabalho com base de dados capaz de definir o impacto dessas atividades. Mas o tema não é novo para a pesquisadora. Mercedes está entre os 600 cientistas autores do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que alertou o mundo sobre os riscos do aumento da temperatura na Terra. O trabalho venceu o prêmio Nobel da Paz 2007.

Esta é a 12º edição da iniciativa coordenada pela Revista Claudia da Editora Abril. Ao todo foram 15 finalistas para as cinco categorias do prêmio – Ciências, Cultura, Trabalho Social, Negócios e Políticas Públicas (veja quadro). Mercedes concorreu ao título com outras duas pesquisadoras, Jocélia Grazia, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e Vera Val, do Instituto Nacional de Estudos da Amazônia (Inpa). “O país está cheio de grandes mulheres, não há oportunidade sem o envolvimento feminino. Queremos incentivar e divulgar o trabalho desses grandes exemplos”, explica a diretora de redação da Revista Claudia, Márcia Neder.

As finalistas foram escolhidas a partir de uma lista que, geralmente, chega a 200 pessoas. Até chegar ao prêmio, as concorrentes passam por três diferentes júris: o primeiro formado pela diretoria da Editora Abril;  o segundo, pela redação da Revista Claudia; e o terceiro, pelos votos de leitoras via Internet. Em 2006, a vencedora da categoria Ciências foi a professora da Faculdade de Medicina da UnB Íris Ferrari.

AS OUTRAS MULHERES DO ANO 2007

CULTURA
Laís Bodanzky
A cineasta de 26 anos está à frente de importante projeto para tornar o cinema mais acessível: o Cine Tela Brasil, que consiste em uma sala itinerante equipada com material de última geração. O cinema já circulou por mais de 100 municípios dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná apresentando filmes nacionais, infantis e para adultos a mais de 250 mil expectadores. Em julho a proposta incorporou ainda oficinas de audiovisual a jovens de baixa renda.
NEGÓCIOS
Magrid Teske

A catarinense de 53 anos, que há 20 anos atrás vendia chá de confrei de porta em porta, é fundadora e proprietária do laboratório Herbarium. Atualmente, a empresa é líder do mercado de fitoterápicos, tem 280 funcionários e chegou ao faturamento de R$ 50 milhões em 2006. Farmácias de todo o país recebem os produtos dessa marca.

POLÍTICAS PÚBLICAS
Ivete Sacramento
É a primeira mulher negra brasileira a se tornar reitora de uma universidade. Ela ocupou o cargo na Universidade do Estado da Bahia (UNEB) por dois mandatos – entre 1998 e 2002. No período, a baiana de 54 anos, aumentou o número de cursos oferecidos na graduação de 46 para 89 e criou o Programa Intensivo de Graduação de Docentes, que já qualificou 6 mil professores da rede estadual. E mais: abriu as portas da universidade para a comunidade por meio de cursos de extensão e de alfabetização de jovens e adultos.
TRABALHO SOCIAL
Patrícia Souto Audi

A administradora de 39 anos criou em 2004 o Projeto de Combate ao Trabalho Escravo da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Ela coordenou a iniciativa por quatro anos, período em que mobilizou importantes atores sociais a respeito do tema, como políticos, empresários e jornalistas. Além disso, foi uma das responsáveis pela elaboração do Pacto Nacional da Erradicação do Trabalho Escravo, ao qual mais de 100 grandes empresários já aderiram se comprometendo a não mais comprar nem revender produtos oriundos das fazendas que praticam tal violência.

 

 

 
 

PERFIL

Mercedes Bustamante graduou-se em Ciências Biológicas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), em 1984. Concluiu o mestrado em Ciências Agrárias na Universidade Federal de Viçosa (UFV) em 1988, e o doutorado em Geobotânica na Universitat Trier (Unitrier), na Alemanha, em 1993. É professora da Universidade de Brasília (UnB) desde 1994, onde atua no Laboratório de Ecologia do Instituto de Ciências Biologias (IB). No currículo, são 27 artigos publicados e seis capítulos de livros. Já orientou seis teses de doutorado e oito dissertações de mestrado.

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