09/ 12/ 2004 - pedofilia

Perigo dentro de casa

Segundo especialista, a maioria das crianças abusadas
é seduzida pela relação de confiança com os familiares

DIEGO AMORIM
Estagiário da Assessoria de Comunicação

Em 2003, 80% dos casos de abusos sexuais contra crianças e adolescentes no Distrito Federal aconteceram no âmbito familiar. Os dados da Delegacia de Proteção de Criança e do Adolescente servem para alertar que o pedófilo pode estar mais perto do que se imagina. O pesquisador da Universidade de Brasília (UnB) Vicente Faleiros – um dos elaboradores do texto do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) – foi convidado pelo Programa de Educação Tutorial (PET) de Psicologia da UnB para fechar o III Ciclo Temático de Debates Pedofilia: sobre o que se cala, sobre o que se fala na quinta-feira, 9 de dezembro, no Anfiteatro 6.

Daniel Nek/UnB Agência
Faleiros lembra que, muitas vezes, crianças são ameaçadas pelos abusadores

“As vítimas confiam nos abusadores e têm neles uma idéia de proteção”, comentou. Na estratégia de sedução, a confiança geralmente se mistura a chantagens: “A criança é a ‘queridinha preferida’, mas recebe ameaças de morte para não contar nada a ninguém”. Faleiros explicou que abuso sexual não se resume ao ato da penetração. Contato inadequado com o corpo da criança, toques e carícias, palavras, tudo isso pode ser definido como crime sexual (ver lateral).

PACTO DO SILÊNCIO – A família que tem um abusador dentro de casa é, na maioria das vezes, estigmatizada como amaldiçoada. O medo dessa intolerância social justifica, para Faleiros, o segredo dos cúmplices da pedofilia intrafamiliar. “A pedofilia é inaceitável socialmente e, ao mesmo tempo, tolerável familiarmente”, diz. O pedófilo, quando descoberto, apresenta uma reação de pânico. Posteriormente, passa a negar firmemente toda a situação e a culpar a vítima pelos atos.

Mesmo não sendo regra geral, o pesquisador relatou ainda que os casos de abuso são repetidos e não ocorrem eventualmente. “Existem pais que abusam da primeira filha, da segunda, da terceira...”, contou. Os passeios, as horas do banho e de ver TV são normalmente ocasiões transformadas em ritos para a satisfação do pedófilo. “Ele é uma pessoa egoísta que corre atrás apenas de seu prazer”, comentou.

HOMEM NORMAL – Faleiros acredita na existência de uma atual epidemia da pedofilia. “O abusador está disseminado e é difícil identifica-lo externamente”, frisou, ao explicar que eles não estão inseridos em nenhuma classe social específica. Para o professor, o perfil do pedófilo é o mesmo de uma pessoa considerada comum. E mais: costumam ser vistos como exemplos no meio em que vivem.

Entretanto, estudos apontam que uma pessoa abusada quando criança, numa forma de revanche, tem maior possibilidade de ser pedófila. O uso de drogas ilícitas e o alcoolismo também podem incentivar abusos. “Em geral, é uma pessoa com a sexualidade mal resolvida, com um vazio interior profundo”, explicou.

 

 

 

 

 

QUAIS SÃO OS CRIMES SEXUAIS?

- Tentativa de estupro
- Estupro
- Atentado violento ao pudor
- Ato obsceno
- Corrupção de menores
- Sedução
- Rapto violento
- Importunação ofensiva ao pudor
- Posse sexual mediante fraude
Fonte: Polícia Civil do Distrito Federal

COMBATE NACIONAL

Em 2000, o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) aprovou o plano nacional de enfrentamento da violência sexual, liderado pela Organização Não-Governamental (OnG) Centro de Referência, Estudos e Ações sobre Crianças e Adolescentes (Cecria), coordenada por Vicente Faleiros. O plano tem como pontos principais o atendimento às vítimas de abuso, a defesa dos direitos humanos, a responsabilização do agressor, a prevenção e a pesquisa.

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