08/ 08/ 2002 - correio braziliense

E malas prontas...De novo

Eles — e elas — levam uma vida movimentada, por conta de profissões que exigem viagens constantes e uma rotina longe da família

Flávia Duarte
Da equipe do Correio

‘‘Não sou um pai normal, daqueles que saem cedo para trabalhar e à noite volta para casa.’’ A afirmação é do ator brasiliense Murilo Grossi, 38 anos, que interpretou o personagem Júlio, assistente do geneticista Albiere (Juca de Oliveira) na novela O Clone. Envolvido na rotina de luzes e flashes, o ator dividia, em época de gravações, a agenda da semana no esquema Brasília-aeroporto-Rio de Janeiro-aeroporto-Brasília. Na bagagem levava roupas suficientes para dois ou três dias de trabalho e toda a saudade dos amigos e parentes que ficavam por aqui.

Assim como Murilo, muitos profissionais se dividem entre a labuta e a família. Tarefas que exigem muito tempo longe de casa, em viagens constantes e cansativas. É o preço que pagam para serem atletas, caminhoneiros, políticos, executivos, diplomatas, comissários de bordo, marinheiros ou qualquer outro profissional da lista de peregrinos. Junto com o sucesso na carreira, vêm as passagens marcadas, horas de espera no aeroporto e noites solitárias em hotéis pouco familiares.

‘‘Esse é um padrão de vida muito comum hoje, o que acaba criando novas formas de relacionamento. Acontece bastante nesses casos, porém, é que as pessoas se sentem culpadas pela ausência, principalmente quando deixam os filhos’’, analisa a terapeuta familiar e psicóloga Maria de Fátima Sudbrack, do Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de Brasília (UnB).

Quem fica também sofre. Esposa, marido, filhos e amigos sentem falta da presença mais constante. Fazer o quê? O melhor é não poupar na conta de telefone e contar os dias para a volta de quem está longe. Alguns até vêem um lado positivo na distância: a vontade de ver o sucesso do outro e a saudade que não deixa o amor esfriar. ‘‘O segredo preciso é estabelecer um equilíbrio familiar. O importante é mostrar para os filhos e companheiro que o sucesso profissional traz ganhos para toda a família’’, acrescenta a terapeuta Fátima. Com ou sem culpa não adianta. O dever lhes chama e está na hora de partir. O Correio aproveitou um momento de escala em Brasília para entrevistar algumas dessas pessoas que passam muito tempo entre o céu e a terra firme.

"A FALTA DE ROTINA É MUITO PENOSA" - Para a esposa, em sete anos de relacionamento, o pior momento da carreira do marido artista foi quando ele passou mais de um mês em temporada no Rio. ‘‘Era muito complicado porque quando a gente se acostumava com a ausência, ele vinha nos visitar e desequilibrava tudo de novo’’, lembra-se a antropóloga Adriana Cabral, 28 anos, casada com Murilo Grossi. ‘‘Parecia que um furacão tinha passado em nossa vida. Ele chegava de viagem e mal tinha tempo para descansar’’, conta ela, que na época do namoro recebia cartas apaixonadas do companheiro, enquanto ele brilhava em palcos distantes.

Depois de tantas idas e vindas do marido, ela até já se acostumou. Murilo passou quase três meses longe de casa quando gravou o filme Canudos, há seis anos; durante a produção de O Clone, teve a possibilidade de passar três dias em terras cariocas e o resto da semana junto com a mulher e os dois filhos. ‘‘É um ritmo muito maluco. Ainda assim, com todo trabalho é impossível não sentir falta e pensar na família’’, conta Murilo, que ficou sabendo da segunda gravidez da esposa enquanto negociava a participação na novela das oito.

Apesar da correria, o ator aproveitou os momentos de escala em Brasília para curtir a espera pelo caçula Lucca, de 11 dias. Mas quem não perdoa mesmo a ausência do pai é a primogênita Elisa Grossi, 5 anos. ‘‘No dia do meu aniversário meu pai não estava aqui’’, conta, sentida, a pequena de olhos claros.

"MEU CASAMENTO SE RENOVA A CADA VIAGEM" - Se quando se casou, aos 21 anos, a deputada e educadora Esther Grossi, 66 anos, nem pensava em trabalhar, hoje, 45 anos depois, ela lida com uma rotina bem diferente. Os dias da semana, passa na capital da República envolvida com o mundo da política. Sábados e domingo curte o colo do marido, o pediatra Sérgio Grossi, 69 anos, na casa em que vivem em Porto Alegre. ‘‘O Sérgio tem uma vida independente. Até os filmes que não gosto de assistir, ele aproveita para ver enquanto estou fora’’, conta Esther. Um rearranjo no dia-a-dia essencial para quem vê a esposa poucas vezes no mês. Fora a agenda política, a educadora viaja pelo mundo apresentando palestras e seminários de educação. Sem falar que, anos atrás, morou quatro meses no Canadá e logo investiu no doutorado de quatro anos em Paris, o que exigia viagens à Europa que duravam de um a dois meses de estudo.

Para o casal Grossi, a correria típica de gente importante como Esther nunca foi motivo para abalar o casamento prestes a comemorar Bodas de Ouro. ‘‘A distância até apimenta o relacionamento. Você fica na expectativa de encontrar a outra pessoa’’, garante Sérgio. A deputada pensa igual. ‘‘Depois de uma viagem nunca somos os mesmos. Quando chego de um lugar volto com novas roupas, gosto de novas músicas e até aprendo pratos diferentes. Isso é o que sustenta a relação’’, conclui Esther.

"O ESTRESSE EMOCIONAL É MUITO GRANDE" - Não faltam lágrimas. O ex-jogador da seleção brasileira de vôlei Paulo André Jukoski, o Paulão, ainda não se acostumou com as despedidas da esposa e dos filhos Pietra, 4, e Pedro Henrique, 6. Na disputa pelo cargo de deputado, Paulão arruma as malas e parte, pelo menos cinco vezes por mês, para reuniões e visitas em vários cantos do país. Difícil para ele e também para os que esperam o retorno. O pequeno Pedro Henrique, então, até já acordou sentindo uma tal dor no peito, segundo ele, resultado da tamanha saudade do pai.

‘‘Final de semana e à noite são os momentos mais difíceis’’, considera a esposa de Paulão, a professora Cláudia Regina Costa, 34 anos. Casados há nove anos, Cláudia bem que tenta se acostumar com a rotina errante do marido. Em tempos idos de seleção, até o casamento deles teve de ser planejado na semana de trégua de treinos. Dias depois, a lua-de-mel foi interrompida e lá estava o

Se hoje é difícil, na época da seleção era muito pior. ‘‘Quando ficava mais de 20 dias na concentração chorava de saudade’’, conta o atleta, que recorria ao telefone e nem se importava com a conta de mais de R$ 900. Apaixonado por fazendas e festas nas casas dos amigos, Paulão estava longe em muitas noites de reunião família. ‘‘Ficar longe causa um cansaço emocional muito grande, mas sempre tive a compreensão e força da minha família’’, acrescenta.

"A PROFISSÃO É IMPORTANTE, MAS A FAMÍLIA VEM EM PRIMEIRO LUGAR" - Ida e volta no mesmo dia. Essa é a programação da funcionária pública Cibele Magalhães, 34 anos, para conciliar as viagens de trabalho com o papel de mãe. Nem se importa em acordar às 5h para cumprir a agenda em São Paulo e voltar num prazo de poucas horas. ‘‘À noite é quando posso brincar com as crianças, ir ao shopping, assistir a um filme ou acompanhar as tarefas de casa. Não abro mão disso’’, conta Cibele, que viaja até quatro vezes por mês. Enquanto ela dá palestras pelo Brasil, o marido se desdobra para fazer papel de pai, mãe e dona de casa zelosa. O funcionário da Caixa Econômica Federal Jacob Batista, 34 anos, faz compras, busca as crianças na escola, acompanha os banhos e consola os filhos quando bate a saudade da mãe. ‘‘Meu marido me dá muita força, ele supre a minha ausência em casa de todas as formas’’, elogia Cibele.

Mas nem sempre as viagens são tão rápidas. ‘‘Sinto muita saudade deles, principalmente quando conheço um lugar bonito e penso como seria legal se estivessem comigo’’, lamenta a funcionária pública que não esquece o presentinho dos filhos Carolina, 7 anos, e Thiago, 4.