17/ 02/ 2004 - correio braziliense

A força dos goianos nos vestibulares de Brasília

É cada vez maior o número de estudantes de goiás na UnB e na Faculdade
de Medicina do GDF. Além das vagas, eles têm se destacado entre os candidatos.
Os jovens recebem boa preparação e procuram a capital federal pela proximidade de casa

Priscilla Borges
Da equipe do Correio

Eles arrebentaram. Os candidatos do estado de Goiás apresentaram um excelente desempenho no último vestibular da Universidade de Brasília (UnB), cujo resultado foi divulgado na semana passada. Foram aprovados 144 jovens de cidades goianas, o que representa 14,44% das vagas oferecidas pela instituição. Mas eles não foram simplesmente aprovados. Ficaram entre as melhores colocações.

Entre os cinco primeiros selecionados em cada uma das três áreas de conhecimento (Ciências Humanas, Ciências Exatas e Ciências da Saúde), há pelo menos dois estudantes do território que cerca o Distrito Federal. Um deles ficou em segundo lugar geral. Natural de Pouso Alegre (MG), Antônio César Mendes Santiago, de 18 anos, lista rapidamente os motivos que o levaram a tentar uma vaga em instituições de ensino superior do DF (ele também foi aprovado na Escola Superior de Ciências da Saúde — ESCS): estar perto de casa, os bons conceitos de qualidade das faculdades e por apostar nas oportunidades de trabalho em Brasília.

Para concretizar o sonho de estudar Engenharia de Redes de Comunicação, Rodolfo Carvalho Cunha, que obteve a pontuação mais alta da área de Exatas (443,90 pontos), teria que sair de Goiânia de qualquer forma. Não há instituições que ofereçam a habilitação na cidade. A melhor saída era tentar UnB, que o jovem considera uma das melhores do país. ‘‘Para mim, ela está ao lado da USP e da Unicamp, que são as maiores. Mas, além disso, fica mais próxima de casa'', afirma.

Segundo os jovens, as escolas de lá não preparam os alunos especificamente para as provas daqui. Mas o ritmo de estudos é suficiente para que eles sejam aprovados em vestibulares de universidades de todo país . Um colégio, em especial, é citado pela maioria dos candidatos goianos como grande fonte de aprovações: o WR. Lá, é possível fazer ensino médio ou cursinho preparatório. Algumas lendas aumentam a fama de rígida que a escola tem. Dizem que há funcionários do WR que se dedicam a procurar fotos de alunos em sites que acompanham festas da cidade. Se encontram, mostram à direção, que dá um puxão de orelha nos saidinhos.

Preparação – Quem já estudou lá garante que é exagero. Os egressos do WR afirmam que os professores só pegam no pé daqueles que não estão comprometidos com os estudos. Para seguir o ritmo imposto pelo colégio é preciso ter pique. Antônio conta que há muitas aulas e os colegas são bastante interessados. A disciplina é fundamental e exigida todo o tempo. A qualidade é também garantida. Tanto que a fama se sustenta pelos estudantes. A direção, além de não conversar com a imprensa, não faz publicidades da escola. Acha mais válida a velha propaganda boca a boca.

Mas o bom preparo não vem só de Goiânia. Bruno Magalhães D'Abadia, de 17 anos, morador de Anápolis, ficou em primeiro lugar no curso de Engenharia Mecatrônica e em terceiro na área de Exatas. A surpresa foi recebida com muito orgulho pela família e pelo próprio estudante, que nunca morou fora de Anápolis. Estudioso, chegava a ficar oito horas em cima dos livros depois do período de aulas. ‘‘Não tive trégua até o dia do vestibular'', lembra.

Apesar de muito diferente do estilo de provas a que estão acostumados, os jovens goianos garantem não sentir grandes dificuldades para realizar as avaliações do vestibular. Bruno gostou do estilo novo adotado pela UnB. ‘‘A prova é abrangente e mais dinâmica que a anterior. Acho que ficou mais fácil'', avalia. Vinícius Araújo Barbosa de Lima, de 18 anos, acha a modalidade de provas difícil, mas concorda que é mais aprofundada que as demais. O goiano lembra que a determinação do aluno faz diferença e pode levá-lo a qualquer parte.

Tradição – Segundo o reitor da UnB, Lauro Morhy, que trabalhou muitos anos no órgão de seleção da universidade, os candidatos de Goiás são, tradicionalmente, os maiores clientes da instituição depois dos jovens brasilienses. Tanto que, a partir do 2º vestibular de 2001, a UnB passou a aplicar as provas no próprio estado (o primeiro em que o Cespe implantou o sistema), evitando que os alunos viessem a Brasília. De acordo com o professor, em seguida, vêm os estudantes de Minas Gerais, São Paulo e Bahia. Além da proximidade geográfica, Morhy atribui à qualidade dos cursos os motivos que trazem tantos interessados para a capital.

Ele acredita que os goianos são tão bem preparados quanto os brasilienses para enfrentar as provas. Morhy acredita que os cursinhos andam em sintonia com o conteúdo e a forma de cobrança da universidade. E os resultados comprovam isso. Thiago Carneiro Elias, de 18 anos, diz que são poucos professores que comentam questões do vestibular da UnB. Os temas cobrados pelo Programa de Avaliação Seriada (PAS) entram mais na pauta.

O jovem garante que não achou as questões difíceis. Lembra, entretanto, que é preciso um trabalho de longo prazo para obter sucesso. ‘‘Não adianta só começar a pensar em estudar no meio do 3º ano e achar que vai passar'', afirma.

Eles são maioria na Faculdade de Medicina do GDF – Os alunos da ESCS apontam vantagens em estudar no DF: é mais perto de Goiânia e o ensino oferecido pela instituição é de qualidade

Não é só a UnB que foi invadida pela turma de Goiás. A Escola Superior de Ciências da Saúde (ESCS) também, onde os números são ainda mais impressionantes. A primeira turma, formada em 2001, tinha apenas dez estudantes de Goiânia. Em 2002, a realidade mudou. Das 80 vagas oferecidas, 33 foram preenchidas por estudantes de Goiás.

Em 2003, o número subiu para 44. Este ano, foram aprovados 45 jovens de lá. É verdade que, destes, 30 passaram na Universidade Federal de Goiás (UFG) e 16 já pediram cancelamento de matrícula.

Mas o curioso é que, na 2ªchamada, a faculdade convocou mais oito classificados. Seis moravam no estado de Goiás. Com os cancelamentos, a 3ªchamada engrossou. Foram chamados mais 21 jovens. Do total, dez são de cidades goianas. Quem já conseguiu uma vaga se justifica: é mais perto de Goiânia e o ensino na cidade é bom. Eles lembram ainda que a procura por Brasília é natural, já que candidatos de Medicina fazem muitos vestibulares, em todos os cantos do país. Com a proximidade, é mais fácil matar as saudades da família. Os estudantes voltam para casa quase todos os fins de semana.

João Paulo de Azevedo, de 19 anos, acha que o estilo de provas da faculdade — que aborda uma variedade maior de conteúdos — favorece seus conterrâneos. Segundo ele, os cursinhos goianos preparam os alunos para concorrer em qualquer vestibular e é preciso estudar bastante para seguir o ritmo imposto por eles.

João adiciona outra razão para fazer o curso na ESCS. Para o futuro médico, o currículo da instituição é moderno e mais integrado ao Sistema Único de Saúde (SUS), o que deixa a faculdade à frente das outras.

A colega Juliana Sobral, de 20 anos, está no segundo ano do curso. Ela comenta que grande parte dos alunos de Goiânia passou pelo colégio famoso pela rigidez, o WR. Outro aspecto que Tiago Augusto Bernardes, 20 anos, faz questão de ressaltar é que, em geral, as escolas de ensino são fortes e dão uma boa base aos estudantes.

Rede pública
O sucesso dos estudantes de Goiás em Brasília deixou a secretária de Educação do estado, Eliana Maria França Carneiro, orgulhosa. Ela comenta que, além do bom desempenho dos egressos de colégios particulares, os alunos das escolas públicas também têm demonstrado um bom rendimento. Em 2002 e 2003, eles ocuparam grande parte das vagas da UFG.

Dados da própria instituição mostram que, em 2002, 31% dos aprovados no vestibular estudaram a vida toda na rede pública de ensino. Outros 22,46% não estudaram toda, mas a maior parte da vida escolar na rede. Em 2003, os números demonstraram a mesma coisa.

Para Eliana, este é um sinal de que os investimentos em educação feitos pelo governo estão dando certo. Este ano, a Secretaria conseguiu cobrir toda a demanda de vagas no ensino médio. O número de alunos na rede estadual hoje chega a 231.990. Segundo a secretária, a grande preocupação agora é diminuir o índice de evasão das escolas.

Ensino superior
O Distrito Federal está entre as unidades da federação com mais estudantes matriculados em cursos de graduação. Segundo dados do Censo da Educação de 2002, divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), 20 municípios concentram 45% do total de alunos do ensino superior. Brasília está em terceiro lugar, com 96.043 universitários.

Isso representa 2,75% do total de 3.479.913 estudantes do país. Em primeiro e segundo lugares aparecem São Paulo, com 377.471 alunos (10,8%) e Rio de Janeiro, com 236.644 alunos (6,8%), respectivamente. As capitais são maioria entre esses municípios. Outras sete cidades do interior ou de regiões metropolitanas aparecem na lista. Entre elas estão Campinas (SP), Niterói (RJ) e Canoas (RS).